22/03/2012
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09h49
CLAUDIO ANGELO
ENVIADO ESPECIAL A MANAUS
O conceito de desenvolvimento sustentável e sua irmã, a
sustentabilidade, têm sofrido abusos, especialmente das empresas. Quem
diz é a mãe das crianças, a norueguesa Gro Harlem Brundtland.
Ex-premiê da Noruega, Brundtland, 73, chefiou a comissão que em 1987
produziu o relatório "Nosso Futuro Comum", onde o conceito de
desenvolvimento sustentável foi cunhado. O relatório serviu de base para
a Eco-92.
| Thierry Roge/Reuters |
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| Gro Brundtland em foto durante uma conferência da OMS em Bruxelas; ela participa nesta semana de fórum em Manaus |
Desde 2007, ela integra juntamente com Fernando Henrique Cardoso, Kofi
Annan, Jimmy Carter e outros líderes mundiais o grupo dos Elders,
formado por Nelson Mandela para discutir a paz e os direitos humanos.
Ela diz que o desenvolvimento sustentável, aos 25 anos, ainda não foi
implementado. E que, mesmo com o sequestro da noção de sustentabilidade
por empresas que não têm práticas nada sustentáveis, o par não deve ser
abandonado. "Mesmo que alguém inventasse outra definição, e eu ainda não
vi isso, eles encontrariam um jeito de fazer mau uso dela."
Brundtland abre nesta quinta-feira (22) em Manaus o Fórum Mundial de
Sustentabildade, evento anual que traz lideranças do setor ao Amazonas.
Não chegará a se encontrar com FHC, que faz palestra no evento no dia
seguinte.
Em entrevista à
Folha, ela falou de suas expectativas para a Rio +20.
Folha - A sra. não está de saco cheio dessa palavra "sustentabilidade"?
Gro Harlem Brundtland - Para mim a expressão é "desenvolvimento
sustentável". Esse é o conceito. Nos últimos dez anos, mais ou menos, as
pessoas começaram a usar "sustentabilidade" como uma forma alternativa
de dizer. Eu sempre tive muito cuidado em não usar a palavra
"sustentabilidade" sozinha enquanto conceito que cobre a visão para o
futuro. Nós precisamos de sustentabilidade em diversas áreas, mas também
precisamos de desenvolvimento sustentável. E eu não estou de saco cheio
disso, porque não aconteceu ainda.
A sra. não acha que houve muito abuso e mau uso do conceito? Ele
parece ter sido sequestrado por empresas para fazer "greenwash" (dar
aparência de verde).
Sim. Acho que há mais abuso quando fala de sustentabilidade. Porque essa
palavra foi introduzida depois, num contexto diferente, como se
entregasse aquilo que o desenvolvimento sustentável significa. Você
precisa olhar cada empresa para saber se elas estão adotando a
sustentabilidade ou a responsabilidade social corporativa. Palavras
sempre podem ser mal usadas. Mas você não pode simplesmente dizer: "Esse
conceito foi distorcido, então deixamos o conceito de lado". Porque eu
não acho que nós possamos encontrar uma maneira nova e melhor de
descrever do que trataram a nossa comissão e a Rio-92. Não vale a pena
reinventar a roda porque alguém a roubou ou tentou roubá-la. Ela vai ser
roubada de novo. Mesmo que alguém inventasse outra definição, e eu
ainda não vi isso, eles encontrariam um jeito de fazer mau uso dela.
Vinte e cinco anos depois do Relatório Brundtland e 20 anos depois da
conferência do Rio, o desenvolvimento sustentável entregou o que
prometeu? Por que é tão difícil achar exemplos dele na prática?
Eu acho que a totalidade do conceito, a visão dos pilares econômico,
ambiental e social numa abordagem integrada de longo prazo, um padrão de
desenvolvimento sustentável, não aconteceu em lugar nenhum. Mas muitas
mudanças aconteceram, movimentos numa melhor direção. O Protocolo de
Montréal, entre a minha comissão e a Rio-92, é um exemplo. O mundo se
livrou das substâncias que afetam a camada de ozônio.
Mas críticos dizem que isso só aconteceu porque já era de interesse das empresas.
Eu já ouvi isso. Mas acho que a história não é assim tão simples. Acho
que as pessoas mais progressistas na indústria entenderam que aquilo não
podia continuar. Esse é um exemplo simples, de um único setor, muitos
outros casos de sucesso em setores específicos aconteceram. Mas, é
claro, não houve sucessos globais semelhantes, e os gases de efeito
estufa são um exemplo de abordagem ampla e global que envolve todos os
setores da economia. Daí a dificuldade de chegar a um resultado.
E, no entanto, o clima não será tratado na Rio +20.
Existem os trilhos da convenção [do clima das Nações Unidas]. Não
queremos mais uma conferência do clima no Rio. Depois do colapso de
Copenhague, houve no México passos no sentido de os países discutirem
cara a cara o que é preciso fazer no futuro. E em Durban, no ano
passado, as pessoas se deram conta de que não existe maneira de lidar
com a questão climática se você fizer crer que isso é algo que os países
da OCDE [Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico]
podem resolver sozinhos. As emissões da OCDE eram 50% do total mundial,
agora são menos de 30%.
A sra. é europeia, e os europeus sempre negociaram acordos
internacionais com metas e prazos. Durban mudou isso, passou a focar em
processos. O Rio aparentemente está nesse rumo. A sra. não acha que isso
pode dar à sociedade a impressão de que só se está entregando
promessas?
Isso é uma questão de realismo. Os europeus se deram conta de que os
líderes mundiais não serão capazes de chegar a esse grau de detalhamento
sobre metas e sobre a divisão de quem faz o quê. Mas eu não acho quer a
UE vá parar de tentar colocar regras e metas na sua agenda interna.
Voltando ao Rio, se nós não chegarmos a acordo sobre as metas de
desenvolvimento sustentável, precisamos pelo menos concordar que elas
precisam ser desenvolvidas. Talvez também algum acordo sobre as áreas
que elas deverão cobrir. Que deve haver um sistema global de regras de
desenvolvimento sustentável que se aplique a todos os países.
A questão do financiamento ao desenvolvimento sustentável pode impedir um acordo no Rio?
Pode ser. Mas, se você se lembrar do que aconteceu em Copenhague, mesmo
sob pressão de uma crise econômica houve um compromisso significativo de
finanças. Isso pode acontecer novamente no Rio. A economia agora parece
melhor do que há um ano ou dois atrás.
Países emergentes como o Brasil reclamam bastante de que os ricos já
usaram todos os seus recursos naturais e agora o ônus da conservação
ficou conosco. Eles têm razão em reclamar?
Essa litania está aí desde a comissão. E no relatório da comissão nós
reconhecemos que não, não podemos dizer ao mundo em desenvolvimento
"desculpem, nós já enchemos a lixeira e agora vocês não podem mais jogar
o seu lixo". Então nós precisamos transferir tecnologia, ajudar o mundo
em desenvolvimento a superar a pobreza, dando dinheiro. Aí a pergunta
é: o mundo desenvolvido fez isso? E a resposta é não o bastante. Você
pode reclamar de que não tenha havido esforço suficiente para superar
essas diferenças, mas não pode esquecer que este é o mundo em que
vivemos, nem discutir o que deveria ter acontecido no Reino Unido quando
eles começaram a Revolução Industrial.
Quais foram os principais avanços no desenvolvimento sustentável nestes 20 anos?
Houve uma mudança considerável no uso de energia, nos padrões de
eficiência energética. O que você pode ganhar aumentando a eficiência
energética está longe de estar realizado, as coisas estão acontecendo,
ainda que lentamente. Este pode ser um dos grandes temas para o Rio.
A agenda da conferência está diluída demais?
Esta é uma conferência grande, com muitos países diferentes, muitos
interesses diferentes. Você viu o "Rascunho Zero"? Ele é muito fraco.
Mas rascunhos zero sempre são fracos. Porque qualquer coisa controversa,
que tenha objeção de alguns países, é deletada. Mas eu nunca vi uma
conferência internacional que se pareça com o rascunho zero. Quando os
países se juntarem, e as ONGs pressionarem, ele será melhorado. E eu
prevejo que, na conferência, ele será melhorado ainda mais, em áreas
cruciais. Porque países levantam objeções no rascunho zero, deletam
coisas, mas aí as forças começam a se mobilizar e essas coisas voltam ao
texto.
Quais seriam, na sua opinião, os indicadores de que a conferência do Rio foi um sucesso?
Espero que haja acordo quanto à criação de um Conselho de
Desenvolvimento Sustentável [na ONU], quanto à instituição de relatórios
nacionais regulares de desenvolvimento sustentável com transparência,
pelos quais os países prestem contas para o resto do mundo.
E o maior risco de fracasso?
Não sei. Há a questão financeira, da qual falamos mais cedo. Mas, sabe,
existe muito dinheiro hoje que está parado porque as pessoas têm medo.
Quem tem dinheiro não sabe onde investi-lo. Então, uma clareza maior
sobre institucionalizar sistemas que possam melhorar o uso de fundos
públicos e de investimentos privados muito mais amplos em energia, por
exemplo, é uma questão importantíssima que pode sair do Rio. O Rio pode
obter um acordo sobre a realocação desse dinheiro, que é necessária e
útil: mais empregos, menos energia, menos uso de recursos naturais.
Existe algum país que possa liderar na economia verde?
A Coreia do Sul fez muitos esforços nessa direção.
Como o Brasil está indo?
O país é tão grande e há tantos aspectos que eu não sei o bastante para
responder. Mas muita coisa está acontecendo. Há uma melhora na questão
do desmatamento na Amazônia, que pode ser medida. Mas está muito melhor
agora do que quando viemos em 1985. Eu me lembro que estive em Manaus
com um governador famoso [Gilberto Mestrinho] que achava uma estupidez
isso de os ambientalistas virem dizer o que fazer com a Amazônia. Quanto
estivemos em Cubatão, aquilo era um dos casos mais graves de poluição
industrial. Hoje é um exemplo de como as coisas mudam.